Casos de diabetes entre crianças aumentaram durante a pandemia, mostram estudos – Crescer


Dois estudos, conduzidos nos EUA, descobriram que a incidência de diabetes tipo 2 em crianças aumentou durante a pandemia da covid-19. As pesquisas – uma de Washington, DC e a outra de Baton Rouge, Louisiana, foram apresentadas na 81ª Sessão Científica da American Diabetes Association (ADA), segundo o site de notícias médicas Medscape.

Ainda de acordo com o Medscape, ambos estudos revelaram aumento nas taxas de hospitalização por diabetes tipo 2 entre jovens em 2020, quando comparadas com as taxas de 2019. Os pesquisadores notaram também maior gravidade dos casos.

diabete glicose criança (Foto: thinkstock)

Diabetes em criança (Foto: thinkstock)

“Embora não possamos avaliar a causa do aumento do diabetes tipo 2 a partir de nossos dados, essas disparidades sugerem que os efeitos indiretos das medidas de distanciamento social, incluindo o fechamento de escolas e o desemprego, estão sobrecarregando as comunidades carentes. O medo de procurar atendimento médico durante a pandemia também pode ter contribuído “, disse ao Medscape o endocrinologista pediátrico Brynn E. Marks, do Children’s National Hospital em Washington, DC, responsável por um dos estudos.

De acordo com informações da CNN, o outro estudo, realizado pelo Centro de Pesquisa Biomédica Pennington, de Louisiana, notou que a taxa de internações de crianças por diabetes tipo 2 foi de 0,27% – ou 8 casos em 2.964 internações, no período entre março e dezembro de 2019. No mesmo período de 2020, a taxa saltou para 0,62% – 17 casos em 2.729 hospitalizações. 

O autor principal desse estudo, Dr. Daniel S. Hsia, disse ao Medscape: “A taxa de incidência de diabetes tipo 2 em crianças já estava aumentando antes da pandemia. Embora possa haver um breve nivelamento conforme as crianças forem recebendo assistência médica regular e voltando para a escola, eu acredito essas taxas continuarão a aumentar, especialmente considerando que as taxas de obesidade infantil não estão melhorando”. A diabetes tipo 2 é o tipo mais comum e está associada à obesidade, dieta inadequada e falta de exercícios.

As crianças que receberam atendimento para diabetes tipo 2 em 2020 tiveram sintomas mais graves do que as admitidas em 2019, disse o Dr. Hsia. No ano passado, os jovens apresentaram maior nível de açúcar no sangue e sinais de desidratação – causada quando o corpo tenta se livrar do excesso de glicose ao urinar, segundo a CNN.

Os casos de diabetes tipo 1 em crianças também têm demonstrado aumento. A Dra. Elaine Apperson, chefe da divisão de endocrinologia pediátrica da Prisma Health, na Carolina do Sul, disse à emissora local WSPA que a tendência de aumento de casos é preocupante. “De 2019 a 2020, vimos um aumento de 64% em nossos pacientes com diabetes de todos os tipos. Direi que nossos pacientes do tipo 1 também aumentaram dramaticamente”, constatou. Com a diabetes tipo 1, o corpo produz pouca ou nenhuma insulina. Embora a diabetes não tenha cura, a doença pode ser controlada. 

O aumento no Brasil

Segundo Felipe Lora, endocrinologista pediátrico do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, também houve aumento no número de crianças atendidas com diabetes tipo 1 durante a pandemia. “Em atendimentos no pronto-socorro do Hospital Sabará, por exemplo, tivemos um aumento proporcional de 80% nos casos de diabetes”, relatou à CRESCER. 

O médico explica, no entanto, que esse aumento não reflete o número de novos casos da doença. “Entendemos que isso se deva mais à demora para procurar o pronto-socorro, muitas vezes por pacientes já diabéticos. Não são necessariamente casos novos”, conta. “Os casos novos são internados, e olhando o número de internações, o aumento foi de aproximadamente 20%”.

Lora explica ainda que é comum que pessoas que contraíram alguma infecção, não necessariamente a covid-19, passem a apresentar quadro de diabetes tipo1. “Esse tipo ocorre devido a uma inflamação no corpo, e mesmo antes de a covid-19 existir, era comum que pessoas que apresentaram algum quadro infeccioso desenvolvessem a doença. Isso porque as infecções mexem na inflamação do corpo, o que muitas vezes acaba dificultando que o pâncreas produza insulina”, diz o médico.

Há, no entanto, a possibilidade de que o novo coronavírus realmente aumente as chances de diabetes. “Falando especificamente sobre a covid-19, já sabemos que ela usa um receptor para entrar nas células que existe no pâncreas. Então, na teoria, ela poderia ter alguma ação desregulatória da atividade do pâncreas, e com isso facilitar o aparecimento da diabetes tipo 1”, teorizou o médico. 

O especialista contou ainda que há casos em que a doença chegou a regredir depois de um tempo. “Nós temos um caso de um adolescente que teve covid-19 cinco dias antes e chegou com um quadro grave de diabetes. Mas depois ele melhorou muito e o quadro regrediu. Não se sabe, porém, se ele vai voltar a apresentar diabetes em algum momento”, disse.

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