Fator de risco da Covid, diabetes também pode desencadear infecções diversas – Folha de Londrina

O diabetes mellitus, ou somente diabetes, é uma das comorbidades elencadas pelo Ministério da Saúde como prioridade na vacinação contra a Covid-19, somando-se a outros fatores de risco, como pressão alta, câncer, doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e doenças renais crônicas.

 

Fator de risco da Covid, diabetes também pode desencadear infecções diversas
Gustavo Carneiro – Grupo Folha 12/05/2021

 

Segundo a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), há mais de 16,8 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, sendo o quinto no mundo, atrás apenas da China (115,5 milhões), Índia (70 mi), Estados Unidos (30 mi) e Paquistão (18 mi). A entidade estima que metade dessa população brasileira portadora do diabetes desconheça a presença da doença. Ainda de acordo com a SBD, de 1990 a 2017 o diabetes saltou da 11ª para a terceira posição no ranking de mortalidade a cada 100 mil habitantes, em ambos os sexos, e envolvendo tanto doenças transmissíveis, maternas e neonatais quanto doenças crônicas não transmissíveis.

Para entender a gravidade da doença e justificar sua inclusão como grupo prioritário na imunização contra o coronavírus, a FOLHA conversou com a endocrinologista e metabologista Claudia Montemor, de Londrina. Segundo ela, comparando pacientes com e sem diabetes, os portadores dessa condição crônica mostraram ser mais suscetíveis a infecções em geral.

No entanto, a endocrinologista complementou que a associação entre diabetes e um pior quadro de infecção viral não é algo inesperado. “A hiperglicemia prejudica o controle do vírus circulante no sangue com potencial de agravamento de morbidade e mortalidade”.

A endocrinologista  fez um paralelo com a gravidade de diversas infecções. “Poucas vezes vi ser discutido, mas quem possui diabetes tem cerca de duas a três vezes a mais chance de evoluir para dengue hemorrágica. Mortalidade por influenza também é maior, assim como outras pneumonias virais e bacterianas, e infecções urinárias. Doenças tropicais como Chagas também são mais comuns em quem tem diabetes. Mucormicose (infecção por bolores), gangrena de Fournier (bactérias na região genital) também. Essa discussão sobre diabetes e infecções deve durar e ser lembrada muito além da atual pandemia”, ressaltou.

MEDICAMENTOS

Para Montemor, é preciso também ter cautela com relação aos medicamentos. “Aqueles pacientes diabéticos que já vinham com medicamentos em uso podem seguir mesmo em caso de infecção para Covid. É preciso lembrar que interrupção de medicações pode piorar a glicemia, assim como uso de corticoides, que apesar de eficazes nesse combate às inflamações, podem provocar o aumento da glicose e também bloquear a produção de insulina pelo pâncreas, o que causa alterações no organismo”, pontuou. Por outro lado, também deve-se ter cautela na rigidez do controle glicêmico. “A taxa de açúcar no sangue abaixo do normal (hipoglicemia) também pode levar a um aumento da mortalidade”.

A endocrinologista explicou que o controle da taxa de açúcar no sangue contribui para manter elevada a imunidade, seja por meio do uso adequado da insulina, medicação oral, alimentação equilibrada ou exercício físico. “A baixa imunidade está ligada à elevação do açúcar no sangue e não à falta de produção de insulina. A pessoa com diabetes que está muito acima do peso também pode ter a imunidade afetada por ter maior inflamação desenvolvida por este excesso de peso”, explicou.

 

Segundo a SBD, no Brasil são cerca de 16,8 milhões de pessoas com diabetes
Segundo a SBD, no Brasil são cerca de 16,8 milhões de pessoas com diabetes | iStock

 

Montemor comentou ainda que a faixa etária da população com 60 anos ou mais, que já tenham complicações além do diabetes – como hipertensão – segue sendo um motivo de preocupação, independente se o diabetes for tipo 1 ou 2. Ela alerta que o contrário também chama a atenção da classe médica: a infecção pelo coronavírus como fator de risco para o aparecimento do diabetes ou a piora de um quadro já existente.

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SENSAÇÃO DE UM NOVO RESPIRAR

Aos 59 anos, a massoterapeuta Rosana Duarte, moradora do Jardim Nações Unidas (zona leste de Londrina), foi diagnosticada com diabetes tipo 2 há cerca de 20 anos. Após um pico de pressão alta – segundo ela gerada por estresse na vida pessoal – fez com que os exames no hospital lhe indicassem a existência da doença. “Não sentia nada. Uma doença muito silenciosa”, contou.

 

Rosana Duarte: "A vacina me deu um ganho de vida em meio a tanto medo"
Rosana Duarte: “A vacina me deu um ganho de vida em meio a tanto medo” | Arquivo Pessoal

 

Ao longo dos anos e, nas suas palavras “sem o devido cuidado”, o diabetes custou sua visão. “Foi muito triste. E isso me conscientizou em ter que mudar a rotina. Não é fácil cuidar, mas estou tentando”, afirmou. Hoje, ela diz tomar dois tipos de insulina e tem o cuidado redobrado com a ingestão de carboidratos.

Recebendo a primeira dose da vacina contra Covid há cerca de duas semanas, a sensação foi de “um novo respirar”. “Como já tinha feito uma cirurgia no coração, foi muito assustador tudo isso. Fiquei muito tempo confinada. A vacina me deu um ganho de vida em meio a tanto medo. Já me reequilibrei emocionalmente e fisicamente estou bem. Sei que a pandemia não acabou, e acredito que teremos que manter esses cuidados por um bom tempo”, concluiu.

TOMANDO CUIDADOS 

Moradora da Gleba Palhano, a empresária do ramo alimentício Simone Estela Lopes de Arruda foi diagnosticada com diabetes tipo 1 há uma década. Aos 47 anos, ela conta que o histórico familiar a fez se prevenir para que a doença não atingisse um nível extremo. “A pandemia não alterou meu dia a dia, já que faço o tratamento há muito tempo, sempre tomando os cuidados em relação à comida e nunca esquecendo dos remédios”.

 

Simone Estela Lopes de Arruda: medidas para que a pandemia não alterasse o dia a dia
Simone Estela Lopes de Arruda: medidas para que a pandemia não alterasse o dia a dia | Arquivo Pessoal

 

Ela relata à FOLHA que contraiu a Covid e com isso seu nível de diabetes aumentou. “Mantive a medicação, e depois do período de quarentena, o nível se estabilizou. Tomei a primeira dose no último dia 26 de maio e mesmo assim não me sinto totalmente segura em flexibilizar nenhuma medida de combate ao coronavírus”.

CONTRAINDICAÇÕES

Segundo a médica Claudia Montemor, as contraindicações à vacina contra Covid-19 de pessoas com diabetes são as mesmas da população em geral: alergia grave aos componentes da vacina, febre ou doença crônica intensificada. “Infecção atual por Covid ou outra situação deve ser adiada a vacina”, indicou.

Ela completou informando que em crianças ainda não há estudos suficientes para indicação da vacina e gestantes devem ser avaliadas com seu obstetra. Ainda no caso das gestantes,  observou  a endocrinologista, durante a gravidez pode ocorrer um enfraquecimento no sistema imunológico, devido a alterações hormonais, sendo necessário ter atenção redobrada para evitar problemas como resfriados, gripes e infecções urinárias. “É fundamental um controle muito melhor também das glicemias, que deverão ser medidas com maior frequência também para o bem-estar da mãe e do bebê”.

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